segunda-feira, 12 de março de 2018

Ecrãs, dopamina, prazer e relações humanas

Há dias precisei de ir a uma urgência hospitalar com um dos meus filhos e não pude deixar de reparar  com tristeza na quantidade de crianças que esperavam nessa urgência com os olhos pegados a um ecrã de telemóvel ou um tablet, isto para além da televisão na sala de espera ligada num desses canais em que é possível ver desenhos animados 24 horas por dia. A maior parte dessas crianças tinha menos de três anos e muitas não tinham sequer um. 
Há poucos dias li também um artigo que falava da forma como os conteúdos digitais são cada vez mais pensados para fomentar o seu uso o mais possível e até para criarem alguma dependência. E a realidade é que temos cada vez mais adolescentes e até crianças verdadeiramente viciadas em ecrãs. 
A esmagadora maioria dos pediatras hoje em dia afirma que as crianças com menos de dois anos não devem ter nenhum contacto com ecrãs. 

Então é preciso termos noção das consequências que traz este uso, sobretudo durante os primeiros anos de vida em que o cérebro está em formação.


A culpa é da dopamina...


Aqui é importante distinguir a internet e os jogos da televisão, porque, apesar de tudo existem diferenças e o potencial de criar dependência é um pouco maior nos primeiros. Isto porque quando navegamos pela net, quando usamos uma rede social ou quando jogamos um jogo é muito mais fácil provocar no nosso cérebro aquilo que podemos chamar uma injecção de dopamina. A dopamina é um neurotransmissor que está associado às sensações de prazer e que tem um papel muito importante em todos os comportamentos de dependência. Sempre que recebemos um gosto em alguma fotografia do facebook, sempre que alguém nos começa a seguir no instagram por exemplo, recebemos um pequeno incremento de dopamina, o que está ligado a uma sensação de prazer. Isto acontece também sempre que estamos a jogar um jogo, de cada vez que conseguimos atingir um determinado objectivo. Tudo nas redes sociais é pensado para potenciar ao máximo essas injecções de dopamina e nos jogos todos os barulhinhos e cores que aparecem cada vez que conseguimos atingir um dos objectivos do jogo serve também para alimentar essa rede de dopamina no cérebro que faz com que queiramos receber cada vez mais esta estimulação. 

Quantidades ainda maiores de dopamina são libertadas por drogas como a cocaína, por exemplo e estão relacionadas com a dificuldade em deixar o seu consumo. Porque a dopamina é uma substância que está ligada ao prazer, a sua falta está ligada à sentimentos de depressão, que pode surgir se não conseguirmos produzir dopamina suficiente. E, no caso das dependências, a falta daquele objecto que provocava o aumento de dopamina no cérebro está ligada às várias sensações de sofrimento intenso que podem surgir.

....Mas não só 

Acontece que, sempre que produzimos dopamina desta forma, podemos dizer que estamos a dar origem a um sentimento de gratificação vazio. Da mesma forma que o açúcar são calorias vazias de nutrientes, a dopamina que produzimos através da realidade virtual também é uma gratificação vazia. Vazia porque não está ligada a nenhum sentimento de crescimento nem de realização pessoal, não nos ajuda a crescer, nem a estarmos mais ligados aos outros e por isso torna-se uma gratificação vazia. E tal como o açúcar nos dá um pico de energia que não é sustentável e que acaba por fazer com o que o organismo depois tenha uma quebra ainda maior nos seus níveis de energia, a insulina desta forma tem um efeito semelhante: pode levar a picos que não se mantêm por muito tempo e que depois levam a uma quebra ainda maior desses níveis. Criando assim um ciclo em que depois, o organismo tem necessidade de receber novamente uma grande quantidade de dopamina para poder voltar a sentir esse pico.
E esta é uma das razões pelas quais pode ser tão perigosa. Já existem investigações que demonstram que o tempo passado nas redes sociais pode estar ligado a sentimentos de depressão e de tristeza e uma das razões pelas quais isto pode acontecer pode justamente ter a haver com o facto de que quando ficamos dependentes desta dopamina produzida virtualmente podemos deixar de saber produzi-la com a vida real. E, quando isto acontece torna-se muito difícil atingirmos algum tipo de satisfação pessoal.

A dopamina também está muito ligada aquilo a que Panksepp chama o sistema de busca que, por sua vez, está ligado a um sentimento de prazer e de realização pessoal e está na base de um sentimento de entusiasmo pela vida. Este circuito activa-se sempre que estamos à procura de informação, sempre que aprendemos algo, ou simplesmente quando estamos a ter um comportamento que nos motiva a seguir em alguma direcção. Então este sistema tem um papel fundamental na nossa capacidade de nos sentirmos satisfeitos e realizados com a vida e tem também um papel fundamental em qualquer aprendizagem e por isso é muito importante mantê-lo estimulado e activo se queremos que as crianças tenham gosto e prazer em aprender. Acontece que quando navegamos na Internet, ou numa rede social, também acabamos por activar este sistema de busca e por isso libertamos a tal dopamina mas, se isto não for usado de forma construtiva, acabamos por estar a activar este sistema de uma forma fútil e por isso torna-se muito menos satisfatória e o prazer que provoca tem uma duração muito mais curta, o que quer dizer que acabamos por precisar de reforçar muitas vezes essas doses e isto pode levar ao tal comportamento de dependência. Isto é verdade também para os adultos mas é especialmente grave para as crianças que ainda têm o cérebro em formação e que, por isso, acabam muito mais facilmente por desenvolver esses comportamentos de dependência e, de certo modo, podem mais facilmente esquecer-se que existem outras formas mais saudáveis e duradouras de produzir dopamina. 

Nos primeiros anos de vida, aprendemos a produzir dopamina sobretudo através da nossa relação com as pessoas mais importantes, quando tudo corre bem com estas ligações. Se as pessoas mais importantes da nossa vida não estiverem verdadeiramente presentes e disponíveis nos primeiros tempos de vida, pode ser mais difícil o bebé ou a criança pequena terem toda a segurança necessária para serem capazes de sentir verdadeiramente prazer nas relações e assim a produção de dopamina pode ficar comprometida. E, se o nosso organismo não aprender a produzi-la nos primeiros anos, torna-se muito mais difícil fazê-lo mais tarde. Esta é uma das substâncias que o bebé produz sempre que sorri para a mãe e a mãe lhe sorri de volta, por exemplo. À medida que vamos crescendo podemos aprender a produzi-la com todas as pequenas conquistas e aprendizagens que vamos fazendo sobre nós como aprender a saltar, a correr e a subir para o escorrega no parque infantil mas também sobre o mundo. Mas também aqui, é preciso que haja adultos que nos fazem sentir seguros pois só assim teremos a coragem de partir para essas conquistas e aprendizagens e de experimentar esse prazer que elas podem dar-nos. A segurança é essencial para manter intactos o instinto e a vontade de aprender nas crianças, porque aprender é ao mesmo tempo partir para o mundo e deixá-lo entrar em nós e isto pode ser bastante arriscado. Por isso é essencial que saibamos que existe uma base de segurança para quando tudo corre mal.

Quando não há essa segurança nos primeiros anos de vida, o organismo da criança vive inundado de hormonas ligadas à resposta de stress e tem muito mais dificuldade em produzir substâncias ligadas ao prazer, como a dopamina. Isto quer dizer que, mais tarde, a pessoa terá muito mais necessidade de procurar prazer em substâncias externas ou em comportamentos de dependência porque precisa dessas doses de dopamina e nunca aprendeu a produzi-las de uma forma saudável e sustentável. Sabe-se hoje que este é um dos mecanismos que estará na base de todas as dependências, e foi mesmo esse o tema do primeiro artigo deste blog:aqui

A televisão e a falta de dopamina 

Aqui também é que encontramos uma diferença importante entre a televisão e a internet: é que a televisão não activa da mesma forma o sistema de busca porque nos coloca numa posição um pouco mais passiva e, por isso, acaba por não estimular tanto a produção de dopamina o que faz com que o mecanismo que provoca dependência neste caso não seja tão intenso. 

Mas, a televisão tem outros perigos importantes, sobretudo para as crianças mais pequenas. H. Durante os primeiros dois anos de vida o cérebro das crianças está na sua fase mais intensa de crescimento, são anos em que se perdem e constroem milhares de ligações neuronais, quando o cérebro passa por aquilo a que, em inglês se chama prunning, que podemos traduzir como aparar. E as ligações que são perdidas ou construídas dependem quase exclusivamente das experiências que a criança vive durante esse tempo e, sobretudo, da qualidade das ligações que ela vai formando. Porque as crianças dependem dessa ligação para se manter vivas, já que um bebé humano é um ser totalmente indefeso e dependente e os seres humanos são animais muito sociais, são provavelmente o animal em que as relações humanas são mais importantes. Por isso os primeiros anos das crianças são totalmente destinados a estabelecer relações  de segurança a perceber como é que estas funcionam. E esta é uma das razões pelas quais a televisão pode ser nociva nesses primeiros anos: porque as desvia dessa tarefa fundamental, porque ver televisão é uma tarefa solitária, mesmo que alguém esteja ao nosso lado a ver connosco, pode levá-las a subverter de algum modo esse instinto que lhe diz que precisam de procurar relações com os adultos e que é através dessas relações que devem procurar entender o mundo.

Existem já vários estudos que demonstram que as crianças que passam mais tempo expostas a programas de televisão durante os primeiros anos de vida podem mesmo apresentar alguns atrasos ao nível da linguagem, mesmo quando são expostas a programas com conteúdos educativos. Um estudo em particular demonstrou muito bem isto quando pôs dois grupos de crianças pequenas em contacto com um programa educativo com uma diferença entre os dois grupos: o primeiro recebia esse conteúdo através da televisão e o segundo via exactamente a mesma coisa, com a mesma pessoa, mas ao vivo. O segundo grupo aprendeu muito mais desses conteúdos, além de que registou uma experiência muito mais positiva da situação. Isto demonstra bem como as crianças estão programadas para aprender em relação e através dessa relação. Então um dos grandes prejuízos que a televisão pode provocar nos primeiros anos de vida, é que pode bloquear esse instinto inato de aprendizagem que as crianças trazem com elas e que mantém activo quando tudo corre bem. E é este instinto que as leva também a activar o tal sistema de busca que, por sua vez, também as faz produzir dopamina, mais uma vez. Então sempre que uma criança mexe num objecto ou anda pelo mundo, nos primeiros tempos da sua vida, ela está a aprender algo, porque é assim que as crianças aprendem: a experimentar, a mexer, a manipular, em movimento e, essa aprendizagem, quando tudo o resto está bem no mundo da criança, pode levar a esse sentimento de prazer que é tão importante para a manter activa, feliz e com um sentimento de realização pessoal.  A televisão, ao colocar a criança num estado completamente passivo, bloqueia esse circuito de aprendizagem e esse modo de busca e, quanto menos a criança o activa, mais difícil será voltar a activá-lo. Por isso é muito natural que o excesso de televisão esteja ligado a várias dificuldades de aprendizagem.  Além de que um excesso de televisão está também ligado a problemas comportamentais e dificuldades várias, justamente porque contribui para fazer com as crianças se tornem mais incapazes de ter prazer nas suas vidas e, consequentemente, de se sentirem felizes.


Usar ecrãs como intermediários nas nossas relações 


Outro aspecto particularmente grave do uso das tecnologias é o que acontece quando as usamos como uma espécie de intermediários entre nós e as crianças, sobretudo para não termos de lidar com aquilo que as crianças estão a sentir ou a manifestar em determinado momento. Acho que foi isto que mais me incomodou na sala de espera dessa urgência: perceber que a sala estava cheia de crianças doentes e que tudo o que uma criança doente precisa é de colo e uma dose extra de carinho,  atenção e paciência por parte dos pais mas a maior parte daqueles pais parecia já não saber dar esse colo sem um ecrã à mistura. 
Não sei onde já ouvi a expressão chupeta digital mas aplica-se muito bem aqui, porque muitas vezes usamos as chupetas justamente para não termos de lidar com o choro ou com os protestos das crianças e, hoje em dia, muitos pais fazem isso com as tecnologias e usam-nas para fazer com as crianças parem de chorar ou de protestar nas mais variadas situações. Isto é particularmente grave porque é essencial que deixemos as crianças sentir o que sentem e que sejamos capazes de acolher as manifestações dos seus sentimentos para que elas possam aprender a lidar com eles e também a não ter medo das suas próprias emoções, já que este medo é uma das maiores fontes de sofrimento para muitos adultos.

Então sempre que pomos um ecrã entre nós e as emoções dos nossos filhos estamos a dizer-lhes que não somos capazes de lidar com aquela emoção que ele está a expressar, que não somos capazes de o acolher e aceitar naquele estado. E isto transmite-lhes uma mensagem muito nociva: que não pode confiar em nós para o ajudar a lidar com aquilo que sente e, aos poucos, isso vai fazendo com eles deixem de confiar em nós, com que deixem de se sentir seguros connosco e isso só fará com a ligação entre nós fique cada vez mais corroída e danificada o que, por sua vez, irá também danificar a própria relação deles com o mundo e também consigo próprios. Porque sem os pais como bússola, como lugar seguro e como fonte de confiança, segurança e estabilidade, todas as crianças ficam perdidas, desorientadas e muito mais difíceis de educar. Então aquilo que parece facilitar-nos tanto a vida durante alguns momentos porque faz com que a criança pare de chorar ou fique entretida enquanto temos algum tempo para nós, a longo prazo, afinal, pode mesmo dificultar-nos muito a nossa vida e a dos nossos filhos também. 



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