quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Amamentar sem fantasmas

Há pouco tempo fui confrontada com algumas afirmações sobre a amamentação, por parte de um conhecido pediatra português, que me deixaram triste e revoltada com as ideias que este transmitiu. Triste porque, infelizmente, é alguém que tem uma posição que lhe permite influenciar muita gente e revoltada porque as suas afirmações são mesmo ofensivas para tantas mães e mulheres que dão o seu melhor para alimentar os seus filhos com o alimento mais perfeito que existe, sim, porque o leite materno é realmente o alimento mais perfeito que existe mas não só, porque amamentar também é dar conforto, carinho e segurança, ao contrário do que esse senhor afirmou.

Segundo esse pediatra uma mãe que amamenta um filho depois dos doze meses de idade está a prejudicar gravemente a criança porque o faz regredir e o impede de crescer e, segundo os fantasmas que este senhor tem no sótão, uma mãe que amamenta um filho depois dos 12 meses de idade só poderá estar a fazê-lo por razões egoístas e narcisistas, porque as mães hoje em dia têm poucos filhos e por isso recusam-se a ficar com o colo vazio e querem prolongar ao máximo a sensação de ainda terem um bebé. Estas foram as palavras desse senhor que me deixaram triste, revoltada e ofendida.
Triste e revoltada como profissional por saber que nenhuma destas afirmações tem fundamento científico e por ter noção de que ainda há tantos fantasmas destes a meter medo a tantas mães e ofendida, como mãe, por alguém achar que o facto de eu amamentar os meus filhos pode significar que estou a usá-los, de um modo narcisista para preencher alguma das minhas necessidades.

Assim, por estas razões não podia mesmo deixar de dar resposta a estes fantasmas que habitam na cabeça deste médico e, infelizmente, na cabeça de tantas outras pessoas.

O argumento da mãe narcisista 

Primeiro, é verdade que amamentar nos pode trazer uma boa sensação de proximidade com os nossos filhos e que tem alguns aspectos agradáveis. Amamentar um filho, como pegar-lhe ao colo ou dormir com ele pode estar de facto ligado a algumas sensações de prazer, é verdade, mas esse prazer não tem de estar ligado a nenhuma motivação egoísta, na verdade esse prazer que é suposto encontrarmos na nossa relação diária com os filhos, é ele mesmo a garantia de que somos capazes de sacrificar até os nossos próprios interesses para cuidar deles.

Mas, também é verdade que, como todas as mães que amamentam ou amamentaram sabem amamentar um bebé ou criança não é sempre um mar de rosas. Nem sempre nos apetece dar mama quando eles querem mamar, nem sempre nos apetece acordar várias vezes de noite quando eles querem mamar, nem sempre nos apetece estar cem por cento disponíveis como a amamentação exige.

Na verdade qualquer mãe que amamenta um filho está a fazê-lo principalmente porque sabe que isto é mesmo o melhor para ele e nem sequer faz sentido pensar que alguém o faça apenas por razões egoístas porque, para uma mãe egoísta é muito mais fácil dar biberão (e com isto não estou a chamar egoísta a quem o dá) porque a verdade é que o biberão não nos obriga a estar tão presentes e tão disponíveis como a amamentação. Na verdade uma mãe doente, obsessiva e que viva a maternidade de forma doentia usando os filhos para satisfazer as suas necessidades até tem menos probabilidades de amamentar muito tempo. Isto porque amamentar nos põe em contacto com o bebé mas também connosco próprias, amamentar traz-nos de volta ao corpo e isso vem, muitas vezes, acompanhado de um sentimento de vulnerabilidade que pode não ser assim tão fácil de enfrentar. Uma mãe narcisista - como aquelas que, segundo esse senhor, amamentam para além dos doze meses de idade- é alguém que foi muito ferida na sua infância. Uma personalidade narcisista constrói-se através de uma infância em que a pessoa se sentiu bastante negligenciada e uma das consequências dessa negligência é o negar das emoções e, consequentemente, do corpo, porque as emoções se sentem e se expressam através do corpo. Então, uma personalidade narcisista constrói-se através da negação das suas próprias feridas e de uma boa parte das suas próprias emoções e uma característica deste tipo de personalidade é justamente uma certa dificuldade em compreender e criar empatia com os sentimentos dos outros. O que significa que é provável que estas mães tenham também alguma dificuldade em compreender os sentimentos e as necessidades dos filhos e, como tal, também se torna menos provável que tenham a capacidade de aceitar e de acolher as necessidades de segurança, de conforto e de contacto físico que as crianças demonstram não só mas também através da amamentação.

Além disto uma pessoa narcisista é também uma pessoa que já se fechou aos outros e que, como tal, tem medo de criar ligações mais profundas. E a amamentação não é a única forma de uma mãe se ligar a um filho mas é uma forma bastante profunda e eficaz de o fazermos. Por isso uma mãe narcisista terá também mais probabilidades de querer cortar esse modo de se ligar aos filhos.

Uma mãe narcisista terá também muito mais probabilidades de se assustar com todas as emoções cruas que a amamentação traz, sobretudo nos primeiros tempos de pós-parto. Na verdade, para todas as mulheres que tenham algum tipo de fragilidade ou até de doença mental, o pós-parto é um turbilhão de emoções muito duro de enfrentar e a amamentação pode ser uma boa parte desse turbilhão. A amamentação desperta nas mães um misto de sentimentos profundos e muitas vezes contraditórios: o desejo de se ligar ao bebé mas também o cansaço que por vezes representa ter um ser que depende exclusivamente de si para sobreviver. Durante o pós-parto muitas vezes as mães entram em contacto com recordações e sentimentos que nem sabiam que tinham e podem vir à superfície muitos medos, inseguranças e feridas que estavam escondidas. E a amamentação é um bom veículo para que isto aconteça porque nos põe em contacto com o corpo, através do qual tudo isto acaba por se expressar. 

A amamentação também dá um contributo importante para todas as alterações hormonais que acontecem no pós-parto - com o aumento da produção de oxitocina - por exemplo, que podem também fazer com as emoções da mãe fiquem mais volúveis e aumentam o seu sentimento de vulnerabilidade. E isto, mais uma vez, para quem tenha algum tipo de fragilidade, como aconteça no caso de uma mãe narcisista, é ainda mais difícil de suportar.

Então, aquilo que é mais provável acontecer com uma mãe verdadeiramente narcisista é tentar criar um certo distanciamento do bebé - para não se sentir afundar ou descontrolar com todos os sentimentos que ele traz - e, com isso, o primeiro impulso também será muito provavelmente o de rejeitar a amamentação. Porque se torna praticamente insuportável aguentar essa tomada de consciência e esse entrar em contacto com o corpo e com as emoções que a amamentação pode trazer. Por isso, logo aqui, percebemos que não faz sentido afirmar que todas as mães que amamentam um bebé com mais de doze meses têm uma personalidade narcisista ou traços de narcisismo como este médico parece pensar. 

Todas as mães que amamentam sabem como pode ser cansativo dar de mamar e este cansaço não vem só das exigências de cuidar de um bebé e das calorias extra que o nosso corpo precisa de gastar para fabricar o leite mas a verdade é que, quando amamentava os meus filhos em bebés, sentia que muito para além do alimento que lhes estava a dar na forma de leite era como se estivesse também a dar-lhes uma parte qualquer da minha energia. Não consigo dizer isto sem que pareça algo muito esotérico mas acredito que todas as mães que amamentam saibam do que estou a falar: de certo modo é como se aquela relação que estabelecemos com um bebé que mama nos fizesse sentir que estamos também a dar-lhe uma parte de quem somos, como se para além do leite precisássemos de o alimentar com todo o nosso ser porque a relação que se cria, nos primeiros tempos, é mesmo muito simbiótica. E, com o tempo isso vai-se atenuando, mas a amamentação continua a ser sempre um momento em que podemos facilmente restabelecer o vínculo que temos com o nosso filho e em que podemos facilmente sentir que estamos a alimentar a ligação que existe entre nós com toda a importância que hoje sabemos que isso tem para o seu desenvolvimento.

Leite materno como o alimento perfeito

Do ponto de vista da nutrição, sim, é verdade que existem muitos alimentos hoje em dia que podem preencher as necessidades nutricionais das crianças e este é um dos argumentos usados: o facto que, no mundo ocidental as crianças não passam fome e têm muitos outros alimentos à sua disposição. Mas que lógica tem, pergunto eu, dizermos que até aos dois anos, pelo menos, as crianças precisam de consumir produtos lácteos, que são feitos com o leite de outras espécies para preencher as suas necessidades de cálcio, quando podem ter à sua disposição um alimento que não poderia ser mais perfeito?! Porque nenhum outro alimento se modifica em função das necessidades, da idade e até do género das crianças. Hoje em dia sabemos que o leite materno se vai alterando à medida que a criança cresce e as suas necessidades mudam, sabemos também que o leite que as mães produzem para as meninas é diferente do leite que é produzido para os rapazes (parece que o deles é um pouco mais calórico) e sabemos que quando a criança está doente, o organismo da mãe entra em contacto com aquilo que está a provocar essa doença (através da sua saliva ao que parece) e é capaz de começar logo a fabricar anticorpos que são transmitidos no leite e que ajudam a criança a combater essa doença com maior eficácia, visto que o seu sistema imunitário ainda é bastante imaturo até aos dois anos de idade e continua a desenvolver-se até aos seis. Então não existe nenhum outro alimento na natureza que seja realmente tão perfeito como este. Nenhuma fórmula produzida em laboratório pode ter esta eficácia e não é por acaso que as estatísticas mostram que as crianças amamentadas adoecem menos e recuperam mais depressa do que as que não o são.

É preciso dizer aqui também que isto é válido para todos os leites de todas as mulheres. Que o mito do leite fraco, não passa disso mesmo: um mito, em parte alimentado pela indústria das fórmulas. A natureza é muito sábia e o corpo de uma mulher que acabou de ter um bebé faz tudo o que for preciso para fabricar o melhor alimento para o bebé, mesmo no caso de mulheres sub-nutridas. Li em tempos um livro sobre três bebés que nasceram em Auschwitz, em plena segunda guerra mundial, três bebés que sobreviveram até hoje graças justamente ao leite das suas mães que sobreviviam com uma dieta de apenas 300 calorias por dia, muito inferior ao que qualquer pessoa precisa. Mas foi esse leite precisamente que os salvou porque o corpo das suas mães mobilizou todos os seus recursos para o produzir até ao ponto de, pelo menos uma delas, ter ficado com graves problemas nos ossos porque o seu corpo foi buscar todas as reservas de cálcio que conseguiu encontrar para fabricar o leite para aquele bebé. Então, não existe leite fraco e também não existem mulheres que não conseguem ter leite suficiente, excepto no caso de algumas raridades genéticas que, geralmente, também não lhes permitem engravidar. Na verdade, até existem casos de mães que adoptam e conseguem amamentar e também já soube do caso de uma avó que decidiu amamentar o neto depois da mãe deste ter morrido no parto e de um casal de mulheres em que apenas uma estava grávida mas em que a companheira também estava a preparar-se para amamentar a bebé. Podem surgir algumas dificuldades na amamentação, é verdade, mas todas elas podem ser superadas com o devido apoio de alguém bem informado.

Leite materno como alimento para o cérebro


Mas, para além dos inquestionáveis benefícios da amamentação do ponto de vista físico, também já existem estudos que mostram que as crianças amamentadas mais tempo têm até um Q.I. mais elevado e melhores probabilidades de ter sucesso na vida. Isto porque a amamentar não é apenas alimentar o corpo da criança. Na verdade, hoje em dia, sabemos que ao dar resposta às necessidades da criança estamos também a alimentar o seu cérebro, a ajudá-lo a crescer e a desenvolver-se. 

A sucção não nutritiva, que também faz parte da amamentação, também é uma forma de ensinar o bebé a desenvolver os seus próprios mecanismos de regulação do stress e sabemos que isso também tem uma importância muito grande para o desenvolvimento do cérebro, que é prejudicado pelas grandes quantidades de cortisol que são segregadas quando o bebé é sujeito a grandes estados de stress com frequência. E o objecto original para essa sucção não nutritiva é a mama, não a chucha. A chucha foi algo que veio depois e que muitos bebés nem aceitam e que pode também contribuir para prejudicar muito o sucesso da amamentação, sobretudo se é introduzida demasiado cedo. Ao chuchar o bebé aprende a relaxar e treina e fortalece os circuitos neuronais que estão associados a essa sensação de relaxamento. Este é mesmo um dos principais recursos para o bebé se acalmar e é quase o único recurso para um bebé pequenino. É verdade que, com o crescimento, as crianças começam a desenvolver outras estratégias de relaxamento e encontram outras formas de se acalmar mas também é verdade que este continua a ser ainda um importante recurso nos primeiros anos da infância, não é por acaso que tantas crianças têm dificuldade em largar o dedo ou a chucha e por isso é também natural que tantas ainda precisem da mama para adormecer, por exemplo.

E qualquer mãe que amamenta um filho sabe que está a fazê-lo para dar resposta às necessidades dele, não às suas. É preciso ter uma cabeça mesmo muito cheia de fantasmas para afirmar que aquilo que as mulheres sempre fizeram ao longo de toda a sua história é um comportamento doentio ou regressivo.

Um dos argumentos deste médico é que hoje em dia as mulheres só têm um filho, na maior parte dos casos, e por isso ficam demasiado presas a este filho e muito relutantes em deixá-lo crescer e, para prolongarem a sensação de o ter nos braços, prolongam demasiado a amamentação como forma de impedir esse crescimento e o desenvolvimento da sua autonomia.

Então pergunto porque é que, antigamente, quando as mulheres tinham mais filhos e lhes davam de mamar com toda a naturalidade até muito mais tarde do que aquilo que é costume hoje dia, não o faziam por causa das suas próprias necessidades egoístas? Porque antigamente eram obrigadas a fazê-lo visto que não havia tanta comida, imagino que seria essa a resposta. Mas, nesse caso, porque é que isso não representava uma regressão para os filhos? Ou vivíamos numa sociedade de pessoas infantis, pouco desenvolvidas e sem autonomia até aos anos 60 ou 70 quando as fórmulas para bebés foram introduzidas em massa?

Na verdade, até aos anos 60 era muito comum as crianças mamarem até tarde, sobretudo nas zonas mais rurais que também eram a maior parte do país. Foi o aparecimento das fórmulas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho que baixou dramaticamente o número de crianças amamentadas, ao ponto de se tornar necessário fazer campanhas de saúde pública para estimular as mães a fazer aquilo que, na verdade, deveria ser o mais natural. Hoje em dia as estatísticas mostram que a esmagadora maioria das mulheres sai do hospital a dar de mamar aos filhos mas, infelizmente, à medida que as crianças crescem e os desafios aumentam esse número vai baixando até que aos, seis meses, já só há uma minoria de bebés a ser amamentado em exclusivo e depois dos doze meses de idade, infelizmente, são mesmo poucas as mães que ainda dão de mamar.

Porque é que, um comportamento que sempre foi natural e que fazia parte daquilo que era esperado e natural para uma mãe foi desaparecendo?

Por vários motivos: a introdução das fórmulas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho deram um grande contributo para isto. O facto do parto se ter vindo a tornar cada vez mais intervencionado, também contribuiu porque os bebés precisam de ser deixados em paz e de estar junto do corpo da mãe quando nascem para activar o instinto que os faz procurar a mama. Quando o bebé é demasiado mexido pelos profissionais ou quando não lhe é permitido passar a primeira hora de vida, em paz, tranquilo, junto ao peito da mãe pode não ser capaz de despertar este instinto e com isso podem surgir as primeiras dificuldades no processo de amamentar que podem mesmo acabar por comprometer todo o processo. 

Mas, para além destas razões mais práticas, acredito que, enquanto sociedade também nos temos vindo a afastar cada vez mais corpo e dos instintos e daquilo que é natural. Acabamos por viver muito no mundo da razão e a maternidade, sobretudo nos primeiros tempos, não tem nada de racional e isso pode assustar. Muitas mães, por exemplo, ficam com medo de não conseguir saber exactamente a quantidade de leite que o bebé ingeriu em cada mamada e muitos médicos alimentam isso ao afirmarem que o bebé precisa de x mililitros por dia ou por refeição. Depois, muitas mães, tentam controlar os intervalos entre mamadas de forma rígida para sentirem que podem ter algum controlo racional sobre a situação, o que também pode prejudicar muito todo o processo. A melhor, a única forma de dar de mamar com sucesso, é não olhar para relógios, nem tabelas, nem quantidades. Já vi mães a escreverem num bloco sempre que o bebé acaba de mamar, a que horas mamou, quanto tempo o fez e de que peito mamou. Isto é completamente contrário a tudo o que uma mãe recente precisa. Tudo o que é preciso para o sucesso da amamentação é ligar o instinto e deixar de lado tudo o que é quantificável e mensurável. A mesma coisa quando os médicos querem pesar o bebé todas as semanas e controlar o número de gramas que ele aumenta por dia. Se, em alguns casos, isto até poderá ajudar a controlar alguma situação de saúde mais grave, a verdade é que, na maior parte dos casos, sobretudo em mães de primeira viagem, só contribui para aumentar a ansiedade e tensão à volta da amamentação.

O facto das mães viverem cada vez mais isoladas a fase do pós-parto também contribuiu muito para que se sintam sozinhas e sem apoio para vencer algumas dificuldades que, antigamente, haveria sempre uma mulher mais velha e experiente por perto que poderia ajudar a vencer. Além de que antigamente as mulheres também tinham mais filhos e por isso também havia sempre mais crianças por perto e era mais fácil ir observando a forma como estas eram amamentadas o que ajudava a interiorizar também a naturalidade deste comportamento e alguma informação que poderia torná-lo mais simples. Hoje em dia muitas mulheres nunca viram um bebé a mamar até terem o seu nos braços e não têm ninguém que possa dar-lhes alguma orientação quando se deparam com dúvidas que não sabem como esclarecer.

O argumento da regressão

Outro argumento deste médico era o da regressão: que dar de mamar a uma criança com mais de doze meses significa fazer com que esta entre num comportamento regressivo que pode por em causa o seu desenvolvimento e a sua autonomia.

Não posso deixar de dizer que me parece que esta ideia tem por base uma visão que se baseia numa psicanálise de bolso. A psicanálise é apenas um dos modelos usados em psicologia para nos permitir ter alguma compreensão do processo de desenvolvimento e estruturação da mente humana. Mas é também um modelo antigo e um modelo que, como todos os outros, tem vindo a evoluir e a modificar-se em função dos novos conhecimentos que vão surgindo. Mas é muito fácil alguém pegar em algumas noções básicas de psicanálise mais antiga e acabar por interpretar de uma forma excessivamente limitada e fundamentalista algumas das suas ideias. Então isto é o que acontece quando alguém afirma que amamentar uma criança com mais de doze meses de idade é provocar um estado regressivo que pode limitar o crescimento psicológico dessa criança.

Porque, de acordo com a visão psicanalítica, uma criança que procura a mãe para mamar até pode estar a fazer uma ligeira regressão nesse momento, mas é uma regressão ao serviço do crescimento, porque essa regressão lhe permite encontrar o conforto e a segurança que são necessárias para continuar a crescer e a conhecer o mundo, os que a rodeiam e a si própria. Porque essa regressão é necessária para que, a seguir, a criança possa seguir em frente, com confiança. Porque o crescimento não acontece e não tem de acontecer sempre de uma forma linear. E quando não nos é permitido fazer essas regressões na altura certa, quando precisamos de as fazer, acabamos por precisar de as fazer mais tarde e, geralmente, de forma muito menos adaptativa. É daqui que surgem, muitas vezes, comportamentos menos equilibrados e até disfuncionais como é  o caso de algumas dependências químicas, por exemplo, ou de algumas perturbações mentais.

Então mamar não é só dar alimento mas também dar segurança, conforto e um contacto físico que permitem à criança também aprender a relacionar-se até com o seu próprio corpo porque é através do corpo da mãe que a criança também pode ter oportunidade de aprender a conhecer o seu. E é essencial que as crianças aprendam a crescer de forma segura e que tenham possibilidade de crescer sem medo do seu próprio corpo e sem medo de estabelecer ligações profundas com as pessoas importantes das suas vidas. E é isto que ensinamos a uma criança que mama, que pode confiar e aproximar-se de nós, que pode sentir-se segura no contacto físico com o nosso corpo, que respeitamos as suas necessidades, que lhe damos o espaço necessário para crescer com a segurança de saber que pode sempre voltar a procurar o conforto e a segurança desse contacto todas as vezes que forem necessárias.

E uma criança a quem isto é permitido é uma criança que está pronta para seguir em frente, para crescer e para partir para uma nova etapa do seu desenvolvimento quando for a altura certa. E nessa altura ela saberá mostrar à mãe que está pronta para uma nova fase da relação, que está pronta para procurar esse contacto e esse conforto de uma outra forma e que já não precisa da mama para receber a segurança e o conforto de se sentir amada e acolhida. Porque já é capaz de o fazer de uma outra forma. Mas, para que isso aconteça, temos de confiar e de lhe dar tempo para que ela mesma possa fazer essa descoberta por si e dar-lhe tempo para nos mostrar que está pronta para passar a essa nova fase.

Então, para isso precisamos de nos libertar destes fantasmas e de nos libertar de preconceitos. As mamas existem para alimentar bebés. Ponto. Os nossos filhos não têm culpa que vivamos numa sociedade em que a sexualização excessiva do corpo feminino nos leve a ter tantos fantasmas no sótão que achamos que ver uma mulher a amamentar uma criança de dois, três, quatro ou cinco anos em público é algo de indecente, quase pornográfico. Ao mesmo tempo que essa mesma parte do corpo da mulher é abusivamente usada para tudo em marketing, até para vender carros. Os nossos filhos não têm culpa que nos tenhamos esquecido de uma boa parte dos nossos instintos mas precisam que os recuperemos. Se queremos realmente construir uma sociedade mais equilibrada precisamos de começar por recuperar a nossa capacidade de estar bem com o nosso corpo e com as suas funções naturais e não há modo melhor de ensinar os nossos filhos a fazê-lo do que amamentar sem dar ouvidos a médicos que quase apetece dizer que - em alusão a uma frase antiga da psicanálise que falava na inveja do pénis de que as mulheres poderiam sofrer - parecem sofrer de uma inveja da mama. 


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