quinta-feira, 30 de maio de 2013

Babywearing - use o seu bebé


Hoje em dia fico triste sempre que vejo um bebé pequenino a passear com os pais dentro de um carrinho. Fico triste pelo bebé e por todos os bebés que passam nos nossos dias cada vez mais tempo dentro de contentores de plástico em vez de estarem em contacto com o corpo do pai ou da mãe que lhes pode trazer conforto e tranquilidade. Mas fico triste também pelos pais que perdem essa altura tão especial da vida dos filhos em que é tão fácil e tão agradável trazê-los junto de nós, sentir o seu corpinho quase fundido no nosso, poder observar as suas reacções ao que veêm passar na rua ou simplesmente senti-los dormir, calmos, seguros, tranquilos no calor do nosso corpo.
O parto traz consigo uma sensação de separação. Aquele ser que esteve fundido connosco durante tanto tempo, de certo modo, parece que deixa de fazer parte de nós, deixa de estar connosco vinte e quatro horas por dia e deixa de fazer parte do nosso corpo. Apesar da felicidade de ver o seu bebé cá fora, muitas vezes, isto é vivido como uma sensação de perda. Muitas mães sentem essa perda de forma intensa e parece-lhes que aquele bebé já não é tão seu, já não depende tanto de si. Isto, juntamente com todas as mudanças hormonais que ocorrem, pode contribuir para uma sensação de tristeza. Se, para além disto a mãe tiver algum tipo de insegurança e o bebé for uma criança um pouco mais sensível, que chore muito ou que tenha algum outro tipo de problema, pode surgir muito facilmente uma sensação de angústia ou insegurança, de não se ser capaz de cuidar daquele bebé. Quando o bebé estava na barriga era tudo muito fácil, podíamos levá-lo connosco para todo o lado e a mãe sentia o bebé dentro de si, sentia essa fusão emocional e física que torna a gravidez um momento mágico e de muito preenchimento para a maior parte das mulheres. Mas, com essa separação dos corpos, por vezes, dá-se também uma separação emocional e aí tudo fica mais difícil.
Mas, acontece que essa separação dos corpos que inevitavelmente acontece não significa que tenha que dar lugar a uma separação emocional. O bebé continua a precisar muito da mãe, de a sentir junto a si, de ouvir a sua voz, escutar o seu coração, de sentir o seu cheiro e a mãe, mais do que nunca, também precisa de sentir o seu bebé. Já que não pode senti-lo dentro de si, precisa de continuar a sentir que, mesmo cá fora, separados fisicamente, se mantém uma ligação, uma quase fusão emocional. Nos primeiros tempos a seguir ao parto a mãe não tem espaço dentro de si para muito mais do que tudo aquilo que se relaciona com o seu bebé. É natural que assim seja porque a presença da mãe é essencial para que o bebé sobreviva e se desenvolva. Mas, se a mãe não tiver consciência de que esta necessidade de sentir o bebé junto de si é tão grande como a necessidade que o bebé tem de estar junto da mãe, pode deixar de seguir os seus instintos e acreditar que não deve pegar-lhe ao colo sempre que tem vontade ou sempre que o bebé chora. E aqui começam a aparecer os ingredientes para que surjam problemas na relação: o bebé não vê as suas necessidades reconhecidas por isso sente-se inseguro, ansioso e mostra-o da única maneira que sabe - chorando. A mãe não percebe que tudo o que o seu filho quer é estar junto de si e, ao não ser capaz de impedir o filho de chorar e de se sentir ansioso, começa a sentir-se incompetente enquanto mãe. Isto cria um ciclo vicioso em que se entra numa espécie de luta – em que a mãe tenta educar o bebé e habituá-lo a perceber que não pode estar sempre no colo e o bebé protesta cada vez mais – de que ninguém sai a ganhar.
Acredito que o babywearing – que em português não soa tão bem mas será qualquer coisa como usar ou vestir o bebé – é justamente a melhor solução para quebrar esse ciclo de forma a que saiam a ganhar tanto a mãe como o bebé. Usar o bebé num pano, ou qualquer outro porta-bebé fisiológico, é tão bom para o bebé como para a mãe e é o mais parecido que pode haver com a gravidez para ambas as partes. Mesmo para os pais – que naturalmente nunca poderão ficar grávidos – esta é a melhor forma de estabelecerem um vínculo profundo e de se aproximarem um pouco dessa sensação de fusão com outro ser que a gravidez pode trazer. Quando o babywearing passa a fazer parte da rotina do bebé e da mãe tudo se torna mais fácil, porque deixamos de ter um bebé aos gritos quando queremos fazer qualquer coisa que não pode esperar. É muito fácil colocar o bebé num pano e cuidar de tudo o que precisa de ser cuidado ou transportá-lo connosco para todo o lado.
Para o bebé isto é muito mais satisfatório do que estar deitado num qualquer contentor de plástico. Quando os bebés vão na rua, deitados ou sentados num carrinho, sentem-se sozinhos desprotegidos. Um bebé que anda num pano, ou sling ou um porta-bebé fisiológico, é um bebé que se sente confortável onde quer que esteja, porque sente o corpo da mãe, o seu cheiro, ouve o seu coração e sente-se seguro e protegido por esse corpo tão familiar. Um bebé transportado desta forma é um bebé que chora muito pouco e que se pode levar para todo o lado. Até o meu filho ter uns 8 ou 9 meses íamos para todo o lado com ele enfiado no pano: restaurantes, transportes públicos, casas de amigos, passeios, etc. Quantas vezes não assistimos já a um pai ou mãe que tentam comer num restaurante com o filho pequeno a chorar numa cadeirinha ou carrinho ao seu lado?! Com o meu fillho no pano podíamos passear, trabalhar, ir às compras, conversar com amigos ou comer descansados e sabíamos que ele faria as sestas dele quando sentisse vontade, tranquilamente, no pano, sem precisarmos de deixar de fazer o que quer que nos apetecesse. O máximo que poderia acontecer por vezes era que precisássemos de andar um pouco para que ele se deixasse embalar o suficiente para adormecer mas o pano permitia-nos a nós e a ele saber que estaríamos confortáveis e tranquilos para onde quer que fossemos. Porque um bebé que é transportado num pano é um bebé que está sempre em casa e que pode ver o mundo como um lugar seguro a ser explorado e investigado a partir do conforto dessa casa.
distância que vai do carrinho até ao corpo da mãe para um bebé é demasiado grande para que este tenha consciência de que está verdadeiramente ali alguém. Quanto mais pequeno for o bebé mais assustador pode ser o ambiente que o rodeia se se sentir sozinho: o barulho dos carros, das pessoas, as cores, as imagens sempre a mudar, tudo isto são estímulos novos e que podem causar stress a um bebé muito pequeno. Mas a solução não é mantê-los em casa como muitas pessoas fazem, os bebés precisam de apanhar luz e sol mas, mais importante, as mães precisam de sair um pouco também para se sentirem felizes, então a melhor forma de o fazer é através do uso de um pano ou de outro porta-bebé fisiológico. É importante frisar isto porque muitas vezes se veêm os chamados marsupiais, que são os porta-bebés rígidos, em que os bebés ficam pendurados pela região pélvica e que se tornam muito desconfortáveis (além de não proporcionarem um correcto desenvolvimento da região da anca e da coluna vertebral).
Um bebé que é transportado num pano, na rua, pode ver o mundo e interagir com ele a partir do conforto e da segurança do contacto com o corpo da mãe. Os bebés no pano, sobretudo os mais pequenos, devem ser sempre transportados de frente para o corpo da mãe ou pai, não só por questões anatómicas, mas também porque isto lhes dá a segurança de saber que podem escolher interagir com o mundo e com as pessoas ou refugiarem-se no corpo da mãe voltando a cabeça para esta. Um bebé que é transportado de frente para o mundo não tem essa opção: está permanentemente exposto a toda uma série de estímulos que não tem como evitar e, apesar de poder sentir o corpo do pai ou da mãe perto de si, pode ser muito stressante não ter como evitar o contacto com as pessoas ou com os estímulos que vão surgindo. Se observarmos com atenção os bebés que são transportados desta forma acabam por ter sempre um ar nervoso e quase assustado com a intensidade de tudo aquilo a que estão a ser expostos. Se observarmos um bebé que está voltado para a mãe podemos ver que ele usa muitas vezes este refúgio de esconder a cabeça no seu peito quando não quer interagir com alguém ou quando algo o assusta ou intimida. Isto dá-lhe a confiança de saber que tem sempre esse refúgio a que pode recorrer e, por isso, também lhe dá um maior à vontade para interagir quando opta por fazê-lo.
Ao mesmo tempo os bebés que são transportados desta forma acabam por interagir muito mais do que aqueles que estão dentro dos carrinhos ou ovinhos de plástico. Porque têm a segurança do corpo da mãe ou do pai sempre presente, para além de também estarem mais à altura dos adultos – que lhes dá uma visão muito mais completa do mundo do que a que é possível terem dentro de um carro ou ovo – também têm muito mais confiança e facilidade para interagir com quem ou com aquilo que lhes desperta atenção.
Do ponto de vista fisiológico o contacto com o corpo da mãe ou do pai ajuda o bebé a produzir endorfinas, hormonas associadas a uma sensação de prazer e relaxamento. E o contacto da mãe com o corpo do bebé ajuda-a também a produzir as mesmas endorfinas – que podem contribuir para diminuir as probabilidades de uma depressão pós-parto - e oxitocina que tem um papel importante no estabelecimento do vínculo e também está relacionada com sentimentos de prazer e bem-estar (esta é uma hormona que é libertada também em grandes quantidades durante o orgasmo). A oxitocina está relacionada também com a amamentação o que quer dizer que, o babywearing também pode facilitar a amamentação com todos os benefícios que esta pode trazer para a saúde do bebé e para o sentimento de confiança e segurança para a mãe.



quarta-feira, 22 de maio de 2013

Porque é que temos tanto medo que os nossos filhos precisem de nós?


Há uns anos fui visitar um bebé que tinha nascido há pouco mais de quinze dias, quando cheguei a casa dos pais, o bebé estava deitado numa daquelas cadeiras reclináveis próprias para bebés, colocada no chão da sala e nós, adultos, ficámos sentados no sofá a olhar para ele durante algum tempo sem que ninguém lhe pegasse. Passado algum tempo chegou a avó do bebé e, com o seu instinto de avó, assim que o viu deitado na cadeirinha pegou-lhe logo ao colo. Ao ver isto a mãe refilou com ela dizendo que o estava a habituar mal e que não tinha tempo para estar com ele ao colo sempre que começasse a pedir. Isto passou-se há uns bons anos, na altura eu ainda não tinha filhos, mas nunca mais me esqueci das palavras daquela mãe, dedicada e orgulhosa do seu filho, como todas as mães recentes mas cheia de medo de lhe criar maus hábitos se lhe pegasse ao colo sempre que ele queria.
Anos mais tarde, quando tive o meu filho, muitas pessoas me diziam que não podia andar sempre com ele ao colo e que se lhe pegasse sempre que ele chorasse ficava habituado a isso e poderia manipular-me facilmente. Nunca segui estes conselhos e sempre peguei no meu filho aos primeiros sinais de protesto mas, o que é certo, é que, durante os meus primeiros tempos como mãe, quando via que o meu filho não passava mais do que uns dez ou quinze minutos na cadeirinha de plástico colorido que, com tanto cuidado, tínhamos escolhido para ele e que nem a vibração que a cadeira fazia se carregássemos num botão, nem os bonecos coloridos pendurados ao alcance dos seus braços, serviam para o demover de protestar e gritar se ninguém lhe pegasse ao colo, comecei a pensar que estaria a fazer algo de errado e as tais vozes de que estaria a deixá-lo mal habituado começaram a fazer algum eco na minha mente. Felizmente que não dei muitos ouvidos a esses ecos e, à medida que o tempo foi passando e fui lendo mais sobre estas questões e ganhando mais confiança no meu papel de mãe fui percebendo que, essas ideias de que não devemos pegar muito nos bebés ao colo, ou que não devemos dormir com eles, ou dar de mamar até muito tarde, ou que devemos deixá-los chorar um pouco, estão a ficar cada vez mais ultrapassadas pelos novos conhecimentos que se vão fazendo na área da psicologia do desenvolvimento. Começa a haver uma sólida base de estudos e investigações que mostram que os bebés cujas necessidades são respeitadas – e a necessidade de contacto físico num bebé é quase tão forte como a necessidade de comer ou dormir – se tornam crianças muito mais felizes, seguras, confiantes, capazes de estabelecer relacionamentos significativos saudáveis, mais fáceis de educar, com menos problemas de comportamento e melhores resultados escolares.

Muitas observações mostram que os bebés que passam mais tempo no colo choram menos e têm muito menos episódios das chamadas cólicas. E também já existem estudos que demonstram que os bebés que têm mais contacto físico com os pais crescem tornando-se crianças mais seguras, confiantes e melhor adaptadas e capazes de estabelecer bons relacionamentos.

Mas, muitos pais dos nossos dias, continuam com medo que os seus filhos nunca se tornem independentes se lhes derem todo esse contacto físico de que necessitam. Então vemos cada vez mais bebés e crianças pequenas que passam o dia em contentores de plástico em vez de estarem em contacto com o corpo do pai ou da mãe, ouvindo o seu coração, sentindo o seu cheiro, sentindo-se seguros e contidos nos seus braços. Na verdade o ser humano, como já dissemos noutros artigos, nasce com um elevado grau de dependência e um bebé pequeno vem de um mundo onde nunca sentiu fome, calor, frio onde os ruídos são sempre constantes, onde vivia no abraço constante do liquido amniótico num estado de semi-fusão com a sua mãe. Quando o bebé nasce, essa fusão que existia com a mãe não desaparece imediatamente. Durante os primeiros meses de vida é perfeitamente observável que os bebés reagem aos estados emocionais das suas mães: se a mãe está tranquila e feliz o bebé também estará, se, pelo contrário, a mãe fica nervosa e agitada o bebé irá demonstrar isto rapidamente. Na verdade os bebés, sobretudo durante o primeiro ano de vida, podem ser um óptimo espelho das emoções da sua mãe. Então, se esta ligação tão forte existe, é muito natural que o bebé, que ainda não se sente um ser completamente separado nem autónomo, precise desesperadamente do contacto com o corpo da mãe que ajuda a regular o seu próprio corpo. O pai, se estiver muito presente, também pode servir como um bom substituto mas, nas alturas de maior aflição, nos primeiros tempos de vida, não há nenhuma outra ligação que possa substituir aquela que o bebé tem com a mãe a quem esteve ligado durante os seus primeiros nove meses de existência. É possível observar que, quando os bebés estão ao colo das mães, o seu ritmo cardíaco fica mais regular, a respiração mais tranquila e todo o seu metabolismo parece adoptar um ritmo mais equilibrado. E, se a mãe estiver calma, o bebé começa também a segregar hormonas associadas a sensações de prazer e bem-estar. Hormonas que a mãe, em contacto com o bebé, também segrega como a oxitocina e as endorfinas que podem até ser um importante factor para prevenir a depressão pós-parto e para fazer com que a mãe se sinta segura, tranquila e confiante no seu papel de mãe. 
Então porque é que temos tanto medo deste contacto físico que é essencial para o bom desenvolvimento do bebé e da criança?

Muitos pais têm medo de andar com as crianças ao colo, medo de dar de mamar até tarde, medo de dormir com os filhos, medo que as mães fiquem em casa muito tempo com as crianças em vez de irem para a escola. E todos pela mesma razão: às vezes parece-me que vivemos uma espécie de pânico colectivo, na nossa sociedade, de que os filhos nunca mais larguem as saias da mãe.

E, na verdade, essa tão almejada independência nunca chega a existir de verdade. Porque todos precisamos de alguém. E as pessoas mais felizes são justamente as que o sabem e são capazes de lidar com isso da melhor forma. A Psicologia Positiva, com base em muitos estudos, mostra que as pessoas mais felizes são justamente aquelas que têm melhores relacionamentos, porque o ser humano é um animal social. Desde que nascemos que precisamos de criar laços e precisamos de sentir que os outros nos ouvem, nos compreendem e nos apoiam.

Então porque é que temos tanto medo de ouvir e apoiar os nossos bebés e crianças?

Quando somos pequenos precisamos desesperadamente de estabelecer esse vínculo especial com os nossos pais. Nascemos programados para estabelecer essa ligação com a nossa mãe e, nascemos sem defesas nenhumas. As crianças nascem com uma grande necessidade de estabelecer relações amorosas e completamente prontas e disponíveis para o fazerem. Nascemos totalmente vulneráveis e de coração aberto e, quando encontramos um adulto cujo coração já não está assim tão aberto, quando começamos a perceber que os nossos pais não estão assim tão disponíveis para lidar com as nossas necessidades, quando começamos a achar que o amor que têm por nós vem com algumas limitações, começamos a sentir que dói muito estarmos totalmente dependentes, receptivos e apaixonados por alguém que nem sempre parece disposto a corresponder-nos. Essas dores que se vão repetindo sempre que choramos e ninguém aparece, ou sempre que alguém nos trata mal por algo que fizemos sem más intenções, começam a acumular-se e fazem com que queiramos não precisar de ninguém. Afinal seria muito mais fácil não precisarmos tanto de pessoas que nem sempre estão disponíveis para nós. E fazem também com que nos esqueçamos que um dia precisámos tanto de alguém, precisámos tanto de ser vistos, reconhecidos, de ser acarinhados, protegidos, precisámos tanto de sentir que éramos muito bem vindos a este mundo. E assim, inconscientemente, acabamos por achar que o melhor será também que os nossos filhos não precisem muito de nós. Porque estamos feridos e já não acreditamos assim tanto na nossa capacidade de lhes dar incondicionalmente todo o amor de que precisam. E racionalizamos dizendo que é melhor assim, que serão mais independentes e felizes. Quando é justamente o contrário: é a falta de confiança no amor dos pais que faz com que os filhos não larguem as saias da mãe. Porque é esse amor que os faz sentirem-se capazes de enfrentar o mundo. É a confiança desse amor que lhes dá a liberdade de sentir que pertencem onde quer que estejam e a capacidade de explorar e investigar o mundo. Sem a certeza desse amor as crianças tornam-se ainda mais dependentes, e precisam de estar constantemente a pedir aos pais para, de várias maneiras, demonstrar que gostam delas, que lhes podem dar atenção. Uma criança que teve todo o colo de que precisou não precisa de o estar sempre a pedir. Uma criança que cresceu segura do amor dos pais pode ter a verdadeira liberdade de saber que precisa dos outros para ser feliz.

Aceitar e respeitar as necessidades dos nossos filhos torna mais fácil a vida deles mas também a nossa, porque nos permite ouvir o instinto e viver de acordo com o nosso coração deixando de lado os medos e as teorias mal fundamentadas que vêm de pessoas que se baseiam apenas no comportamento directamente observável que nem sempre é a melhor forma de avaliar as consequências dos nossos actos a longo prazo. 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Razões para não deixar um bebé a chorar sozinho



Quando o meu filho tinha ainda dois meses uma amiga sugeriu que desse uma vista de olhos num blog que ensinava os bebés a adormecerem sozinhos. O facto de ele adormecer no colo não era algo que me preocupasse, até porque ainda era tão pequenino, mas lá dei uma vista de olhos no tal blog que descrevia a forma de aplicar o método de Ferber que consiste em deixar as crianças chorar, sozinhas na sua cama, durante um certo período de tempo que vai aumentando progressivamente até que a criança acabe por adormecer sozinha. Nesse blog a mãe de uma bebé descrevia como a filha tinha chorado durante algumas noites sozinha, por um longo período de tempo até que, ao fim de algum tempo (não me lembro quanto) acabou por passar a adormecer sozinha sem chorar. O tempo que dura até que o bebé deixe de chorar depende, por um lado da sua própria personalidade - há bebé que desistem mais facilmente de tudo - por outro da coerência com que os pais o aplicam - se estes não responderem mesmo, de forma nenhuma ao choro do bebé, é natural que ele desista mais depressa.
Instintivamente senti que nunca seria capaz de fazer uma coisa dessas ao meu filho mas, o que é certo, é que os pais que o fazem estão convencidos de que é o melhor para seus filhos. Por isso não vale a pena criticar ou julgar, mas acredito que vale a pena apresentar argumentos válidos para mostrar porque é que este método prejudica muito mais do que ajuda e porque é que pode ser o suficiente para minar o vínculo tão especial que deve existir entre pais e filhos. Porque muitas pessoas ainda acham que esta é a melhor forma de por um bebé a dormir, aqui ficam as reflexões que tenho feito ao longo dos meus dois anos como mãe sobre este assunto, baseadas nas leituras que vou fazendo como psicóloga.

Alto grau de dependência - Em primeiro lugar, é importante percebermos que os seres humanos nascem com um alto grau de dependência. Quando comparamos um bebé humano com um animal que pode correr apenas algumas horas depois de nascer percebemos que as crias humanas nascem com um alto grau de imaturidade. Para que a nossa capacidade ao nascer fosse comparável à dos outros mamíferos precisaríamos de nascer com um cérebro equivalente ao de uma criança de três anos o que tornaria a passagem da sua cabeça pela pélvis da mãe impossível. Este grau de imaturidade significa que o bebé depende dos pais para tudo: durante os primeiros anos de vida estes são fundamentais para a sua sobrevivência. Assim, o afastamento dos pais é assustador para um bebé pequeno e o choro é um comportamento de alarme que serve para comunicar que algo não está bem. Se ignorarmos esse comportamento, eventualmente, ele acaba por se desligar, visto que não está a cumprir a sua função mas isto não quer dizer que o bebé não permaneça num estado de alarme e tensão. Existem estudos que mostram que, mesmo quando os bebés param de chorar e adormecem sozinhos, os níveis de cortisol na sua corrente sanguínea continuam anormalmente elevados, o que quer dizer que o bebé continua num estado de stress.

Somos mamíferos – o ser humano faz parte do grupo dos mamíferos, em que as
crias precisam de mamar durante um período de tempo o leite das suas mães. Isto quer dizer que precisam de estar perto delas. Por outro lado, todos os mamíferos têm um sistema límbico relativamente desenvolvido, este é o que possibilita o estabelecimento de laços e de relações sociais que também cumprem uma função de protecção, sobretudo para as crias. O homem, enquanto ser da cidade tem muito pouco tempo de existência quando comparado com o ser da floresta, ou da natureza. Então, tal como os outros animais, as crias humanas vêm programadas para estar junto dos seus pais, já que o afastamento destes dificultaria muito a sua sobrevivência. O homem será com certeza o único mamífero que afasta as crias de si, principalmente enquanto dormem que é o período de vulnerabilidade máxima.


Não é natural – não só não é natural afastarmos os nossos bebés de nós como ainda é mais anti-natural ignorarmos o seu choro. O choro de um bebé é dos estímulos a que é mais difícil resistir, porque estamos programados para não o fazer. Mesmo que o bebé não seja nosso, o primeiro instinto é o de fazer qualquer coisa, nunca o de ignorá-lo. As mães que seguem este método muitas vezes contam que é a coisa mais difícil que já tiveram que fazer e que é muitíssimo angustiante não fazer nada enquanto os filhos choram. Está certo que assim seja, porque não devemos fazê-lo. Um estudo mostrou que, quando os pais ouviam uma gravação dos filhos a chorar, achavam sempre que o tempo do choro tinha sido em média o dobro do tempo real, isto mostra como este é um estímulo difícil de aguentar. Mas não tem que ser assim tão difícil criar um filho: se há muita tensão em todo o processo é porque algo não está a correr bem. Cuidar de um bebé deve ser natural e agradável e, se seguirmos os nossos instintos, mais facilmente o será.

Plasticidade neuronal na infância - Nascemos com um cérebro altamente imaturo mas em grande desenvolvimento o que significa que nos primeiros três anos de vida o nosso cérebro ainda está em organização e, nesta altura são estabelecidas milhares de ligações neuronais importantes ao mesmo tempo que outras são irremediavelmente perdidas. Nestes primeiros anos de vida existe uma enorme plasticidade ao nível neuronal, o que faz com que as crianças, nesta fase, se tornem também extremamente receptivas a todo o meio ambiente, como se fossem umas pequenas esponjas que vão absorvendo tudo o que as rodeia. Durante os primeiros três anos de vida as crianças passam por aquilo a que, em inglês, se chama prunning, que significa que algumas ligações neuronais que não venham a ser usadas serão definitivamente perdidas. Um exemplo disto é a forma como se desenvolve a linguagem: os bebés nascem com capacidade para imitar todos os sons humanos. Quando nasce o bebé é, potencialmente capaz, de produzir todo o tipo de sons mas, à medida que os meses passam e ele ouve apenas os sons da sua língua materna vai perdendo a capacidade de fazer os sons que não ouve nessa língua. É por isso que, uma criança que aprenda a falar duas línguas desde que nasce poderá falar as duas com uma pronúncia igualmente perfeita mas, alguém que aprenda uma segunda língua mais tarde, por muito bem que a domine, terá sempre alguma incapacidade de produzir os sons que forem totalmente estranhos para a sua língua materna
Então esta é uma altura em que o cérebro do bebé está numa aprendizagem intensa e constante acerca do seu ambiente e das pessoas com quem vive. Todo o seu organismo está como que a ser programado para viver num determinado ambiente. Uma criança a quem os pais respondem prontamente está-se a preparar para viver num mundo onde os outros são de confiança e uma fonte de conforto. Uma criança que chora sozinha repetidamente fica programada para deixar de esperar dos outros qualquer tipo de conforto ou de consideração pelos seus sentimentos.

A experiência da cara neutra – esta mostra como os bebés, mesmo com um ano de vida, são bons a ler a comunicação não verbal dos seus pais e como precisam desesperadamente de estabelecer uma relação com estes. Se os pais não respondem ao filho, como se vê no vídeo http://www.youtube.com/watch?v=apzXGEbZht0, estes ficam aflitos e entram rapidamente num estado de agitação e aflição. O nosso cérebro possui dois hemisférios: o esquerdo que está mais relacionado com a lógica, com o racional com a análise intelectual do mundo, para prestar atenção aos pormenores e para a interpretação da linguagem e o direito que está muito mais vocacionado para se ligar às emoções, para observar o todo e para prestar atenção aos comportamentos não verbais. Nos bebés o hemisfério direito está muito mais desenvolvido, na verdade este hemisfério predomina pelo menos nos dois primeiros anos de vida é por isso que as crianças são muito mais ligadas às emoções e reagem ao mundo sempre de uma forma emotiva pelo menos enquanto ainda não dominam a linguagem, altura em que o hemisfério esquerdo como começar a tornar-se um pouco mais proeminente. Isto significa que, tal como as pessoas com afasia (um distúrbio na produção e na compreensão da linguagem) os bebés e crianças pequenas são muito perspicazes na captação das mensagens não verbais que os adultos lhes transmitem.
Então, nos seus primeiros tempos de vida o ser humano parece vir programado para procurar nos outros, principalmente através da sua linguagem não verbal, o afecto e a capacidade de estabelecer as ligações de que precisa para se desenvolver.

Prejudica  o vínculo – as crianças precisam de estabelecer com os pais um vínculo seguro. O facto de não saberem se podem contar sempre com estes pode prejudicar muito este desenvolvimento. Ver artigo: http://parentalidadecomapego.blogspot.pt/2013/05/apego-base-que-define-nossa-relacao-com.htm

Desesperança aprendida – a desesperança aprendida é um nome de Martin Seligman criou para descrever um estado muito parecido com o de uma depressão. Este estado é provocado pela sensação de que não temos absolutamente nenhum controlo sobre o nosso meio ambiente. Se um bebé chora e alguém resolve aquilo que o estava a incomodar este sente que as suas acções importam, sente que tem algum poder sobre o que lhe acontece. E esta é mesmo a melhor forma de nos protegermos contra a ansiedade e a depressão. Vários estudos na área da psicologia positiva mostram que um dos factores mais importantes para a felicidade e bem-estar é sentir que podemos controlar aquilo que nos acontece. As investigações sobre o stress também mostram que a falta de uma sensação de controlo está associada a altos níveis de stress e a uma maior probabilidade de complicações de saúde. Para saber mais sobre este tema pode ler o artigo: http://psiyoga.blogspot.pt/search/label/Psicologia%20Positiva%20-%20a%20Ci%C3%AAncia%20da%20Felicidade

Empatia – a empatia é um aspecto fundamental dos relacionamentos. É através dela que percebemos como os outros se sentem e que podemos estabelecer relações significativas e gratificantes. Um bebé a quem os pais respondem quando chora está a ser tratado com empatia. Aprende que os seus sentimentos são importantes e, esta é a única forma de, no futuro ele aprender a considerar os dos outros. Para o estabelecimento da empatia é importante que mãe aprenda a escutar o bebé. Os bebés gostam de interagir e procuram muitas vezes o contacto humano mas, um bebé pequeno cansa-se facilmente e no meio dessas interacções o bebé, muitas vezes dá sinais de que está cansado. Por exemplo, um bebé pequeno pode balbuciar e sorrir para a mãe quando esta imita os seus sons, algo que é agradável e engraçado para um bebé mas, a certa altura é natural que este se canse e que o mostre voltando a cara para o lado ou baixando os olhos deixando de interagir com a mãe. Se esta perceber que o bebé está cansado da brincadeira e lhe der espaço para ficar um pouco “sozinho” está a mostrar-lhe que as suas sensações são válidas e
importantes e que é capaz de se sintonizar com estas. Quando estas interacções acontecem repetidamente o bebé fica como que programado para valorizar os seus sentimentos e, é só através da tomada de consciência dos nossos sentimentos, que podemos passar a estar despertos para os dos outros.

Não é necessário responder sempre ao bebé – este argumento é muitas vezes usado pelos defensores do deixar chorar. De facto há estudos que indicam que a não é
necessário, nem desejável que mãe responda à criança 100% das vezes: o mais saudável para o desenvolvimento futuro da criança é que mãe responda adequadamente a maior parte mas não todas as vezes. Esta questão é importante na medida em que o bebé precisa de aprender a lidar com frustração e, por isso é desejável que a sinta de vez em quando. Mas é muito diferente deixar um bebé lidar com a frustração de tentar apanhar um brinquedo que não consegue, por exemplo, ou deixá-lo chorar sozinho propositadamente. Há sempre pequenas frustrações que surgem naturalmente e que cumprem essa função. Muitas vezes mesmo que a mãe tente consolar o bebé nem sempre percebe imediatamente como fazê-lo ou não o pode mesmo fazer, como quando o bebé está doente ou tem dores, por exemplo, mas faz toda a diferença que o bebé perceba que esta, pelo menos está presente e está a tentar dar-lhe algum conforto e carinho. Deixar um bebé chorar sozinho e de propósito mais do que criar uma pequena frustração com a qual este pode aprender a lidar activa a sua resposta de alarme e sobrecarrega todo o seu sistema de lidar com o stress.

Exposição repetida ao stress deixar um bebé chorar sozinho, repetidamente, é sobrecarregar o seu sistema de resposta ao stress. Isto, como demonstra bem o livro da psicoterapeuta Sue Gerhardt - Why Love Matters http://www.whylovematters.com/ - fará com que esse bebé tenha fortes probabilidades de se tornar um adulto com uma grande tendência para activar o seu sistema de alarme, ou seja, um adulto ansioso e com dificuldade em lidar com os desafios, porque foi um bebé que ficou programado para viver num mundo hostil e desagradável. Para saber mais sobre como isto acontece pode ler o artigo, A resposta de Stress nos bebés:  http://www.espaco-vida.com/Zen%20-%20Stress%20nos%20bebes.pdf

Desenvolvimento cerebral hoje em dia sabe-se que uma exposição repetida ao stress, para além dos atrasos cognitivos e emocionais, pode mesmo provocar um atraso no desenvolvimento cerebral. É possível ver imagens de crianças maltratadas em que várias partes do cérebro, como por exemplo o hipocampo, têm um tamanho menor do que outras crianças com a mesma idade que não passaram por essas experiências. 

Documentário sobre uma criança de dois anos no hospital John Bowlby e James Robertson fizeram um filme famoso que documentou a estadia de uma criança de 2 anos e 5 meses num hospital numa altura em que não era permitida a presença dos pais durante a maior parte do tempo em que as crianças estavam internadas. Nesta altura em 1952, Laura, uma criança de 2 anos e 5 meses  foi internada durante 8 dias para fazer uma operação. No filme é possível observar aquilo que Bowlby e Robertson classificaram como os estágios clássicos de uma criança que é privada do contacto com a sua mãe durante um período longo de tempo: no ínicio, Laura começa por chorar e gritar que quer a sua mãe durante uma boa parte do tempo. Quando a mãe a visita nos dias seguintes, Laura fica muito ansiosa e quer que esta lhe pegue ao colo o que a mãe não faz por acreditar que é contra as políticas do hospital. Nos primeiros dias, Laura mostra-se muito ansiosa e chora várias vezes gritando que quer a mãe, principalmente depois das visitas, durante os procedimentos médicos ou quando uma enfermeira se mostra mais amigável e atenciosa. Mas, a partir de certa altura, a criança deixa de chorar pela mãe e passa a exibir um comportamento mais controlado e passivo que os médicos e enfermeiras classificavam como um bom comportamento. Nas últimas visitas Laura já não procura a proximidade da mãe, embora se mostre ainda muito ansiosa quando esta se vai embora. E, no último dia, quando finalmente a levam para casa o que se pode ver é que Laura já não procura a proximidade física da mãe e caminha até um pouco atrás desta, mostrando-se mais reservada e até com uma certa apatia emocional. Com este filme, que contribuiu decisivamente para mudar a política dos hospitais no que toca á permanência dos pais durante o internamento, Bowlby e Robertson mostraram que uma criança que se sente abandonada pelos pais passa primeiro por uma fase inicial de revolta e ansiedade em que a criança exprime abertamente a sua angústia para depois entrar num estágio de letargia emocional que pode ter consequências devastadoras que podem nunca mais ser ultrapassadas, modificando para sempre a confiança que esta depositava na mãe ou no pai e alterando o seu relacionamento. Nas primeiras visitas da mãe ao hospital o que se verificava era que Laura estava numa agitação constante que vinha do medo de voltar a ser abandonada, quando este se receio se voltou a confirmar vários dias seguidos a criança simplesmente deixou de procurar activamente a mãe, o que não significa que tivesse ficado tranquila ao fazê-lo.
Um bebé que é deixado a chorar também se sente abandonado, e tal como no filme, acaba por desistir de procurar conforto na pessoa que o abandonou.

Memória implícita - Durante os primeiros dois anos de vida as crianças não têm uma memória
autobiográfica, porque ainda não conseguem organizar os seus pensamentos de acordo com os conceitos de espaço e tempo. Por isso não temos memórias concretas desses primeiros anos, no entanto, as experiências importantes dessa fase ficam registadas naquilo a que se chama memória implícita. A memória implícita é aquela que, muitas vezes, condiciona o nosso comportamento e as nossas escolhas sem nos darmos conta disso. Memória explícita é a parte da memória de que fazemos uso quando nos lembramos activamente de algo, se queremos lembrar-nos por exemplo, da festa que fizemos no nosso 15 aniversário, usaremos a nossa memória explícita para tentarmos ir buscar imagens ou sensações que estejam associadas à ocasião e que nos permitam ir buscar o fio condutor para reconstruirmos a história daquilo que se terá passado nesse dia. A memória implícita é aquilo que usamos, por exemplo, quando estamos a conduzir: não precisamos de nos lembrar detalhadamente de cada movimento que temos de fazer porque estes já acontecem de forma implicita, já aprendemos a fazer tudo o que é necessário noutra ocasião, por isso usamos esse conhecimento sem termos de recorrer a ele detalhadamente. Então, tudo o que acontece nos nossos primeiros anos de vida fica registado nessa memória implicita e, esta dá-nos um padrão, um molde de como será o mundo, daquilo que devemos esperar da vida e dos nossos relacionamentos. Se os nossos pais nos deixavam a chorar sozinhos muitas vezes, é muito provável que fique na memória implícita esse sentimento de desesperança aprendida que pode vir a manifestar-se mais tarde, em qualquer altura da vida.

Independência muitos pais usam este argumento acreditando que os filhos têm de ser independentes, por isso precisam de aprender a dormir sozinhos. Em primeiro lugar é preciso dizer que ninguém é verdadeiramente independente. Todos precisamos dos outros e, a ciência mostra, que as pessoas mais felizes são justamente aquelas que estabelecem melhores relacionamentos interpessoais. Uma criança cujas necessidades não são respeitadas terá muito mais probabilidades de se tornar um adulto dependente: porque haverá sempre um vazio por preencher. Tal como mostra o trabalho de Gabor Mate, uma boa parte das dependências – de drogas, de comportamentos ou ate de comida ou pessoas- tem por base uma sensação de vazio e de abandono que a pessoa não consegue eliminar de outro modo. Em segundo lugar é preciso dizer que não se pode ensinar ninguém a dormir, tal como não se ensina a fazer xixi ou cocó, podemos apenas dar as melhores condições à criança para que o sono, que é uma necessidade biológica aconteça. E a condição mais importante é a segurança: para adormecer bem a criança precisa, antes de mais de sentir-se segura.
Em relação à independência existem formas de a estimular que não implicam um abandono e falta de consideração pelos sentimentos da criança: deixá-los brincar e explorar à vontade (coisa que as crianças seguras, com pais que respondem às suas necessidades fazem melhor), deixá-los terminar as suas tarefas sem precisarmos de interferir ou de dar uma ajudinha quando vemos que não estão a conseguir, deixá-los levantarem-se sozinhos quando caem, não os tornarmos dependentes dos nossos elogios ou dos nossos julgamentos, ajudá-los a tomar consciência do que sentem, do que querem e de quem são, etc

Síndroma da Morte Súbita - Os trabalhos de investigação do Dr. James McKenna, que criou o laboratório de estudos do comportamento da mãe e do bebé em relação ao sono, mostram que, para um bebé com menos de um ano pode ser prejudicial dormir a noite toda. De acordo com este autor, os bebés antes de um ano de idade têm um aparelho respiratório ainda não totalmente desenvolvido e, por isso, podem surgir apneias enquanto dormem. Por esta razão, os bebés têm um sono muito ligeiro e com acordares frequentes. Se os treinarmos para terem um sono mais profundo, quando ainda não estão prontos para tal, isto pode fazer com que não consigam despertar destas apneias levando a casos de morte súbita. Para este investigador a melhor forma de o prevenir é deixando que os bebés durmam com os pais porque, os bebés que dormem com os pais, ao que parece têm um sono mais ligeiro e acordares mais frequentes – embora com menos choro e com menos tempo total em que ficam acordados durante a noite. Nas culturas onde é tradição os bebés dormirem com os pais, como acontece na maior parte dos países asiáticos, praticamente não se conhecem casos de morte súbita. Para ler mais sobre isto pode consultar o site: http://cosleeping.nd.edu/

Conclusão: um bebé que é repetida e propositadamente deixado a chorar sozinho deixa de acreditar no pais como fonte de conforto, ou na sua própria capacidade de os trazer de volta e, assim desiste simplesmente de chorar. E um bebé que desistiu de um comportamento que é essencial para a sua sobrevivência é, de certo modo, um bebé que desistiu de si mesmo e da vida.


quarta-feira, 1 de maio de 2013

Apego - a base que define a nossa relação com o mundo


O conceito de Apego foi introduzido pelo pelo psiquiatra e psicanalista inglês Jonh Bowlby nos anos 50 que chamou a atenção para o facto de existir, em todos os bebés, uma necessidade inata de estabelecerem um vínculo com uma figura de referência. Esta necessidade, segundo Bowlby estaria presente em todos os seres humanos cumprindo a função de manter o bebé próximo da mãe de forma a garantir a sua sobrevivência. Bowlby explicava também que os bebés exibem alguns comportamentos, como o sorriso e o balbuciar, por exemplo que são gratificantes para os pais e se 
destinam a fazer com que estes tenham vontade de o manter por perto e de cuidar das suas necessidades.
 Os bebés começam por responder de igual modo perante todos os adultos que cuidem de si mas rapidamente vão começando a mostrar preferências por uma figura principal que, geralmente, é a mãe ou outro cuidador principal com quem o bebé passe a maior parte do seu tempo. É possível que o bebé estabeleça também uma relação de apego com um outro cuidador mas, a tendência é para que este seja apenas um apego secundário, pelo menos durante os dois primeiros anos de vida. Se o pai estiver muito presente e envolvido na rotina do bebé é possível que se estabeleça também um apego secundário com ele mas, nos dois primeiros anos de vida, a tendência é para que seja a mãe a principal figura de apego da criança. Isto é visível, por exemplo, quando o bebé chora e só a mãe o consegue acalmar, mostrando que essa preferência já foi estabelecida.
Nos seus dois primeiros anos de vida a criança está a aprender a relacionar-se e também a começar a perceber que esses relacionamentos podem ser uma fonte de conforto, de segurança e de prazer. Quando o bebé tem fome, por exemplo, ele sente-se muito desconfortável até que a sua mãe, percebendo esse desconforto pega nele e o alimenta. O bebé sente o corpo quente da sua mãe, fica confortável nos seus braços e, ao mesmo tempo, sente desaparecer a tal desconforto que ele ainda não sabe que se chama fome. À medida que estas interacções se repetem o bebé começa a associar o conforto que sente no colo da mão ao prazer que os relacionamentos podem trazer.
O sorriso é outro dos comportamentos que, segundo Bolwby se destina a fortalecer o vínculo. E, inicialmente, quando o bebé aprende a sorrir (geralmente entre as 6 e as 8 semanas) começa por fazê-lo indiscriminadamente com todos os rostos que se aproximam mas, com o passar dos meses esses sorrisos começam a ser cada vez mais dirigidos apenas para as pessoas que o bebé conhece bem e ainda mais para as suas figuras de apego. Por volta dos 8 meses surge normalmente a chamada angústia do estranho em que o bebé deixa de sorrir ás pessoas que não conhece bem e pode até chorar quando estas tentam pegar-lhe ao colo. Este marco do desenvolvimento por onde passam todas as crianças com um desenvolvimento saudável – ainda que em algumas possa ser mais notório do que noutras - mostra que o bebé já estabeleceu laços de proximidade e de afecto com as pessoas com quem se sente seguro. Por vezes as pessoas não compreendem que esta necessidade de organizar o seu mundo é perfeitamente natural e reagem de forma negativa a um bebé que se recusa a ir para o colo de estranhos ou até mesmo que se recusa a interagir com as pessoas que não conhece tão bem. Mas este comportamento na verdade demonstra que a criança já aprendeu que os seus pais são uma fonte de prazer e de conforto e, por isso, é muito natural que não queira afastar-se deles.
O balbuciar é mais um dos comportamentos que Bowlby referia como sendo destinado a produzir uma reação nos adultos e, também este, com o tempo, passa a ser mais direccionado ás figuras de apego sendo possível que a criança passe a responder apenas ao pai ou à mãe quando estes falam consigo, ignorando todos os outros adultos por muito que estes tentem obter uma resposta sua. Bowlby teve um papel decisivo na forma como, hoje em dia se encara a importância do relacionamento com os pais, contribuindo, por exemplo, para mudar a política dos hospitais no que respeita à permanência destes com os filhos que são internados, graças a um documentário que filmou com James Roberston mostrando os estágios de desespero e, por fim, de desistência porque passou uma criança de dois anos que foi internada sem os seus pais.
O trabalho deste autor foi também fundamental para alterar a política de muitas instituições de acolhimento de crianças órfãs, abandonadas ou maltratadas.
Depois da segunda guerra mundial houve muitas crianças que ficaram desalojadas e sem pais e Bowlby - que trabalhou com algumas delas - observou os danos que provocava a ausência de uma figura maternal nas crianças que estavam institucionalizadas sem um cuidador principal. Nos orfanatos, as crianças eram cuidadas por várias pessoas num regime rotativo em que as suas necessidades fisiológicas eram atendidas mas não havia praticamente mais nenhuma interacção entre elas e os adultos responsáveis. Para além disso, o facto dos prestadores de cuidados se irem alternando também não permitia às crianças estabelecerem uma relação com nenhum deles. O que se verificava nestes casos é que as crianças que estavam nestas instituições desde bebés apresentavam uma série de alterações comportamentais e alguns atrasos de desenvolvimento e Bowlby defendia que estas ficavam mesmo incapazes de vir a estabelecer laços emocionais verdadeiros por toda a sua vida.
Mais tarde, outras observações feitas em orfanatos em países da Europa de leste, depois da queda do comunismo mostraram também como é essencial que as crianças possam estabelecer relações afectivas para que possam desenvolver-se a todos os níveis. Nestes orfanatos encontravam-se crianças que, tendo sido totalmente negligenciadas do ponto de vista do contacto humano e do afecto, tinham variadíssimos atrasos de desenvolvimento ao nível da linguagem, do comportamento e das emoções. Nos casos mais graves, em que as crianças nunca eram pegadas ao colo e não tinham ninguém que alguma vez falasse com elas acontecia até que deixavam de crescer e a taxa de mortalidade era mesmo bastante superior ao que seria de esperar mesmo nos casos em que eram escrupulosamente cumpridas todas as condições de higiene.
Bruce Perry, um psiquiatra dos E.U.A. descreve alguns casos de crianças que viveram em instituições deste género e que foram adoptadas por pais americanos. O que este psiquiatra encontrou nestas crianças, algumas que conheceu já como adolescentes foi alguma imaturidade emocional e uma grande dificuldade em estabelecer relações afectivas mesmo depois de terem passado anos ao cuidado de pais dedicados, atenciosos e carinhosos.
Nos primeiros três anos de vida o cérebro das crianças está em grande desenvolvimento, é uma fase em que são criadas e eliminadas milhares de ligações cerebrais, por isso é uma fase de grande receptividade e em que todas as experiências vão contribuindo para moldar o cérebro e a personalidade.
Este vínculo que se estabelece com a mãe ou outra figura de referência, a que se chama apego, forma a base para todas as relações que iremos ter na idade adulta. É com a nossa mãe que aprendemos o que esperar do mundo, da vida e das relações. Uma mãe que responde às necessidades do filho com afecto mostra-lhe que o mundo é um lugar agradável, ensina-lhe que os relacionamentos com os outros podem ser uma fonte de prazer e que as suas necessidades são importantes. Uma mãe que não responde às necessidades do filho está a ensinar que as suas necessidades não importam e que não se pode confiar nos outros para obter conforto ou segurança.

Mary Ainsworth foi uma psicóloga do Canadá que teve também um papel importante para uma melhor compreensão do conceito de apego. Esta psicóloga desenhou uma experiência clássica que era usada para avaliar a forma como as crianças dos doze aos dezoito meses se ligavam com as suas mães. De acordo com as observações de algumas centenas de crianças Mary Ainsworth estabeleceu uma classificação dos vários padrões de apego. (ver vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=QTsewNrHUHU )
Nesta experiência - chamada a situação do estranho - a criança e mãe começavam por entrar numa sala desconhecida para a criança onde se encontravam vários brinquedos. Era dado algum tempo para que a criança brincasse e explorasse o espaço e, pouco depois, entrava na sala um estranho que tentava interagir com a criança, primeiro na presença da mãe. Pouco depois a mãe saia da sala e a criança ficava sozinha com o estranho, passados três minutos a mãe voltava e o estranho saía da sala. Mais três minutos depois, a mãe voltava a sair e a criança ficava sozinha. A seguir o estranho voltava e tentava confortar a criança. Por fim a mãe voltava e o estranho saía novamente. Nestas situações que se iam sucedendo, Mary Ainsworth observou que havia um certo número de comportamentos padrão que lhe permitiam estabelecer uma classificação do tipo de vínculo que a criança tinha com a sua mãe:

·       Apego seguro – nestes casos a criança fica visivelmente perturbada quando a mãe sai da sala e procura-a no seu regresso, deixando-se confortar por esta quando ela volta. Quando a mãe está presente, as crianças com apego seguro usam-na como a sua base de segurança para explorar o ambiente. Quando observamos este tipo de interacção, por exemplo, num parque infantil, é normal que a criança se afaste da mãe um pouco e depois volte de novo ao pé desta de tempos a tempos ou que, pelo menos, vá confirmando com o olhar se esta ainda está por perto. Se a criança se magoar ou encontrar algum tipo de obstáculo, nestes casos, é natural que volte para o pé da mãe deixando que esta a conforte. Na experiência do estranho estas crianças mostravam evitar o estranho quando estavam sozinhas mas podiam interagir com ele, mesmo que com algum receio, se a mãe estivesse presente. Quando ficavam sozinhas na sala e o estranho entrava, estas crianças nunca se deixavam confortar por ele mostrando uma preferência bem clara pelas suas mães.
 
·       Apego ambivalente – nestes casos a criança também ficava perturbada quando a mãe saìa da sala e procurava-a quando esta voltava mas, ao mesmo tempo, não se deixava confortar e podia mesmo recusar a proximidade física com a mãe. Nestes casos as crianças mostravam sempre algum receio do estranho e eram crianças que choravam mais e pareciam menos livres para explorar o ambiente á sua volta. Estes são casos em que há geralmente um nível mais elevado de ansiedade principalmente em situações novas.

·  Apego evitante – Estas crianças não mostrava nenhuma ansiedade quando a mãe saìa da sala e também não se mostravam receosas do estranho. Quando a mãe regressava também não havia grandes manifestações de alívio por parte da criança e
     depois de terem ficado sozinhas, as crianças deste grupo deixavam-se confortar tão  bem pelo estranho como pela sua mãe.

A maioria das crianças que Ainsworth observou apresentavam um apego do tipo seguro. Este tipo de vínculo forma-se quando a mãe responde, durante a maior parte do tempo, de forma adequada ás necessidades da criança. Alguns estudos mostram que as mães que respondem mais prontamente ás necessidades das crianças e que demonstram um comportamento empático para com estas têm maiores probabilidades de ter filhos com um apego do tipo seguro.
Este tipo de vínculo permite à criança sentir que as suas necessidades importam e dá-lhe a segurança necessária para estabelecer relações seguras de afecto ao longo da sua vida. Existem algumas investigações que mostram que as crianças com apego seguro se tornam adolescentes mais capazes de estabelecer boas relações interpessoais, têm melhores resultados nas escolas e menos problemas de comportamento. Tudo indica que as crianças com este tipo de vínculo serão adultos com maior capacidade de lidar com os desafios e uma menor tendência para ficarem ansiosas.
Os casos de apego ambivalente surgem em mães que não respondem adequadamente às necessidades dos filhos a maior parte das vezes, embora possam fazê-lo algumas vezes. No caso de mães que estejam demasiado preocupadas com os próprios problemas, como as mães deprimidas ou muito ansiosas, por exemplo, não há uma disponibilidade emocional para estar presente e dar à criança a segurança de que as suas necessidades serão preenchidas. Nestes casos a mãe transmite à criança que, durante uma boa parte do tempo, não é capaz de a compreender ou de satisfazer as suas necessidades e a criança aprende que aquela pessoa não é uma fonte de conforto segura, estável e permanente. Uma criança com apego do tipo ambivalente fica muito mais limitada na sua exploração do mundo porque não tem uma base de conforto que lhe dê a segurança de que necessita. Nestes casos a criança, principalmente em ambientes estranhos, procura a mãe com frequência e pode até parecer muito dependente desta mas só o faz porque se sente demasiado insegura para poder largá-la. Estes casos é muito provável que deêm lugar a adultos inseguros e com alguma dificuldade em estabelecer relações. Podem tornar-se pessoas que têm muita necessidade de formar essas relações, como se quisessem preencher esse vazio que sentem sempre, podendo chegar ao ponto de estabelecer relações de dependência em que há uma ânsia de contacto mas, ao mesmo tempo, não confiam o suficiente em si mesmos nem nos outros para se poderem entregar totalmente á relação.
Os casos de apego evitante surgem normalmente em situações de negligência ou de abandono. A criança que nunca foi confortada pela presença da mãe acaba por deixar de precisar dela e qualquer adulto serve como fonte de conforto porque não há um vínculo com a mãe que torne essa relação única e insubtituível. Nestes casos a criança ficará, provavelmente para sempre – a menos que exista um esforço activo para alterar esta situação - com alguma dificuldade em estabelecer relações profundas e duradouras porque o seu cérebro nunca foi estimulado para formar laços. Nestes casos haverá sempre um certo défice de empatia, a pessoa terá alguma dificuldade em avaliar os seus sentimentos e, consequentemente terá também dificuldade em considerar as emoções dos outros com quem se relaciona. Nos casos em que Bruce Perry descreve de crianças que viveram pelo menos os primeiros dois anos das suas vidas em orfanatos, mesmo tendo sido adoptadas por pais afectuosos e dedicados, enquanto adolescentes apresentavam sempre algumas dificuldades de relacionamento com uma certa imaturidade emocional.

Hoje em dia usa-se ainda uma quarta classificação do tipo de apego:

  • Apego desorganizado – este tipo de vínculo é o que se forma normalmente em situações de maus tratos que colocam a criança num dilema que não tem solução: a mesma pessoa que deveria ser uma fonte de conforto e segurança é a que a coloca em situações de perigo de sofrimento e por isso, criança fica sem saber o que esperar daquela relação, ao mesmo tempo que deixa também de confiar nos seus próprios instintos. Uma criança que cresce neste tipo de ambiente terá sempre uma tendência para se manter hipervigilante, procurando nos outros sinais que possam prepará-la para lidar com o perigo iminente. Para além deste estado de hipervigilância constante, que leva a um estado de tensão quase permanente, estas crianças também pode apresentar alguma dificuldade no controlo dos impulsos (uma vez que nunca ninguém lhes mostrou como fazê-lo) acabando, mais tarde, por se tornarem elas próprias nos agressores.
Algumas formas de contribuir para a construção de um apego seguro

  • Responder prontamente ás necessidades da criança – os pais que respondem ao choro dos filhos mostram-lhes que as suas necessidades são importantes e, ao mesmo tempo, que estes têm a capacidade ou o poder de interagir e de alterar as suas condições de vida. Respondendo ao choro das crianças, os pais ensinam-lhe que estão presentes quando é preciso e que podem contar com eles.
  • Estar presente na vida da criança – para que se estabeleçam laços antes de mais é preciso tempo. As figuras de referência para a criança, sobretudo nos três primeiros anos de vida, têm de estar presentes durante uma boa parte do tempo. alguns estudos mostra que o tempo passado na creche antes dos 4 anos aumenta a probabilidade de comportamentos agressivos, anti-sociais e de desobediência. Ver artigo em: www.psychlotron.org.uk
  • A qualidade é importante mas não se deve sobrepor à quantidade – por vezes existe a noção de que é mais importante que os pais tenham alguns minutos de qualidade com as crianças do que passarem o dia inteiro com elas. É claro que a qualidade do tempo que estamos com as crianças conta: a simples presença física, se não houver uma disponibilidade emocional, também pode ser sentida como um abandono. Mas, o que é certo é que a criança precisa de muito mais do que apenas alguns minutos de qualidade com os pais, as crianças antes dos 3 anos não têm noção do tempo e vivem no imediato por isso se a criança precisa da mãe ela tem de estar presente ali, naquele instante. Não adianta dizer a uma criança que chora porque a mãe não está que ela vai chegar á noite, quando sair do trabalho, para criança se a mãe não está presente naquele momento em que ela precisa dela é porque nunca estará. Com o tempo a criança aprende a interiorizar a imagem da mãe e a perceber que pode contar com ela mesmo que esta não esteja presente mas isto não acontece antes dos três anos. Todas as ausências maiores do que 24 horas podem ser sentidas como traumáticas para uma criança com menos de três anos. 
  • Não recorrer a uma rotatividade grande de cuidadores – se a mãe e o pai não podem estar presentes, o ideal é que a criança possa ficar sempre a mesma pessoa com quem tenha possibilidade de estabelecer um vínculo. Por vezes preocupamos-nos mais com os sentimentos dos adultos do que com as necessidades da criança e há crianças que vão uns dias para casa de uns avós e outros para casa de outros. Mesmo que isto seja feito com rotinas bem definidas, a criança precisa de estar muito tempo com a mesma pessoa para que possa estabelecer um vínculo seguro com ela. Isto é especialmente importante no caso dos bebés ou crianças pequenas. Depois dos dois ou três anos de idade a criança até irá beneficiar de ter contacto com mais familiares e poderá, mais facilmente passar algum tempo com estes, principalmente se se sentir bem segura no seu vínculo principal.
  • Use o seu bebé
     o babywearing é uma boa forma de cultivar um vínculo seguro. Os bebés precisam de se sentir em contacto com as mães e usar o seu bebé num pano, sling ou porta-bebés ergonómico permite-lhe fazê-lo com conforto e segurança. Há quem defenda que os primeiros nove meses, até que o bebé aprenda a gatinhar devem ser como uma exogestação em que o contacto com o corpo da mãe é quase constante. Os bebés em contacto com as mães ficam com um ritmo cardíaco mais estável, choram menos e têm menos episódios de cólicas. Quando a mãe pega no bebé ao colo está também a produzir – no seu próprio organismo e no do bebé – endorfimas e oxitocina, hormonas que produzem uma sensação de bem-estar e de tranquilidade e que podem contribuir fortemente para que a mãe não sofra de depressão pós-parto. A oxitocina é também responsável pela produção de leite, pelo que esta prática também facilita o aleitamento.
  • Amamentar – dar de mamar é uma excelente forma de promover o vínculo, é uma forma de o bebé sentir o contacto com o corpo da mãe, de acalmar e também uma forma da mãe se sentir capaz e confiante de que sabe tratar do seu filho. Hoje em dia muitas mulheres desistem da amamentação porque não são bem apoiadas ou aconselhadas a este respeito. Se sentir algum tipo de dificuldade na amamentação procure uma conselheira de amamentação e confie que o seu corpo é capaz de produzir o melhor alimento para o seu bebé.
  • Respeito – é essencial tratarmos com respeito as necessidades das crianças para que elas se sintam ouvidas, compreendidas e aceites. Isto implica que sejamos capazes de as ouvir e de ver o mundo através dos seus olhos mesmo nas alturas mais exigentes.
  • Empatia – mostrar que compreendemos os sentimentos dos nossos filhos quando, por exemplo, estes se sentem frustrados por não poderem fazer algo que lhes apetecia é uma forma de validarmos as suas emoções e pode mesmo facilitar muito a compreensão das regras e dos limites por parte destes.